A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E O LIMITE HISTÓRICO DO CAPITALISMO COGNITIVO
QUANDO O TRABALHO HUMANO DEIXA DE SER O CENTRO DA PRODUÇÃO
A MÁQUINA QUE PENSA NÃO É FICÇÃO, É INFRAESTRUTURA ECONÔMICA EM EXPANSÃO
O concreto é que sistemas de inteligência artificial já executam tarefas que antes exigiam julgamento humano, do atendimento ao cliente à análise de dados complexos, deslocando funções inteiras do mercado de trabalho. Relatórios recentes indicam que cerca de 40% dos empregos globais serão impactados por IA, com economias avançadas chegando a níveis próximos de 60% de exposição à automação cognitiva, o que implica redução de salários, eliminação de funções e reconfiguração profunda da contratação.
Há hipótese consistente, sustentada por dados multilaterais, de que o ganho de produtividade está sendo capturado de forma concentrada por capital e grandes corporações tecnológicas, enquanto parte da força de trabalho enfrenta risco direto de substituição. Estudos da ONU indicam que os benefícios econômicos da IA permanecem altamente concentrados e tendem a favorecer quem controla infraestrutura, dados e propriedade intelectual, ampliando desigualdade entre países e dentro deles.
A ACUMULAÇÃO DE PODER TECNOLÓGICO E A CONCENTRAÇÃO DE VALOR
O que é verificável é que o ecossistema global de IA está fortemente concentrado em poucos países e empresas, com grande parte do investimento em pesquisa e desenvolvimento controlado por um número reduzido de corporações sediadas principalmente nos Estados Unidos e na China.
Isso sugere uma dinâmica de hegemonia tecnológica onde quem controla algoritmos, infraestrutura de dados e capacidade computacional define não apenas a produtividade futura, mas também os termos de distribuição de riqueza e dependência econômica. O risco é a formação de uma divisão estrutural entre países que moldam a inteligência artificial e países que apenas consomem seus resultados, cenário descrito por relatórios da ONU como possível nova divergência global.
Minha opinião analítica é que o capitalismo não está necessariamente acabando, mas está sendo reconfigurado para um regime onde o trabalho cognitivo humano deixa de ser o principal motor de valor e passa a coexistir com sistemas automatizados que capturam parte crescente da produção econômica. Isso não elimina o sistema, mas altera radicalmente quem recebe renda, quem controla meios digitais e quem se torna estruturalmente dispensável.
DESIGUALDADE, RECONFIGURAÇÃO SOCIAL E O FUTURO DO EMPREGO
Existe evidência de que setores específicos e grupos sociais já enfrentam exposição maior à substituição automatizada. Relatórios destacam risco elevado de perda de empregos administrativos e financeiros, especialmente entre trabalhadores com funções repetitivas e carreiras intermediárias, ao mesmo tempo em que a requalificação pode mitigar parte dessas perdas.
Há hipótese plausível de polarização acelerada do mercado de trabalho, com profissionais capazes de usar IA aumentando produtividade e renda, enquanto trabalhadores sem acesso a qualificação digital enfrentam compressão salarial e exclusão progressiva. Esse mecanismo já foi observado historicamente em ciclos anteriores de automação, onde ganhos de eficiência não se distribuíram automaticamente de forma equitativa.
O risco sistêmico é que, se a renda se concentrar cada vez mais na propriedade de tecnologia e não no trabalho, modelos de consumo e estabilidade social que dependem de salários amplamente distribuídos podem sofrer erosão prolongada, exigindo redes de proteção social, novas formas de tributação ou redesenho de políticas públicas.
QUANDO A PRODUÇÃO DE RIQUEZA PASSAR A OCORRER SEM NECESSIDADE MASSIVA DE TRABALHO HUMANO, QUEM CONTROLARÁ A RENDA, O PODER E O DIREITO DE EXISTIR ECONOMICAMENTE?
ENTRE COLAPSO E TRANSFORMAÇÃO: O QUE PODE EMERGIR
O que também é factual é que relatórios multilaterais não tratam o impacto como destino inevitável. A mesma tecnologia que ameaça empregos pode criar novos setores, ampliar produtividade e abrir espaço para políticas de redistribuição, governança internacional e compartilhamento de infraestrutura tecnológica, desde que haja coordenação institucional e investimento em capacitação.
Minha leitura estratégica é que o futuro não aponta automaticamente para o fim do capitalismo, mas para uma bifurcação histórica. Um caminho concentra riqueza, automatiza decisões e amplia dependência estrutural. Outro redistribui ganhos de produtividade, redefine o papel do trabalho e reorganiza o contrato social em torno de conhecimento, acesso e governança tecnológica. O que prevalecer não será decidido por algoritmos, mas por disputas políticas, regulação e capacidade coletiva de redesenhar as regras do jogo econômico antes que a transição tecnológica consolide assimetrias difíceis de reverter.
Analista C. W. Barbalho
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